Terça-feira, Julho 18, 2006

Contrastes.

Eu não gosto do José Manuel Fernandes: é um desses burocratazinhos da língua, o que me chateia. Mas dirige um bom jornal: o que talvez me chateie ainda mais. Mas nada disso importa: o que está em causa é a «objectividade» jornalística.

A lenga-lenga é conhecida: há que ser objectivo, há que ser objectivo, há que ser objectivo. Santo Deus, há que ser objectivo. Mas, por favor, expliquem-me (objectivamente) como pode um ser humano com um cérebro (por mais inactivo que seja) ser objectivo?

O Público de ontem (17 de Junho) realça os ataques do Hezbollah. Já não era sem tempo: tendo em conta que os atentados terroristas são uma realidade quotidiana de Israel desde 1948, isto é, desde a formação do Estado Sionista. No entanto, as notícias só surgem quando Israel responde. Caros amigos, esqueçam o Zidane: aqui responder às provocações é salutar.

Mas não é preciso dissertar sobre o óbvio: o que interessa discutir aqui é a parcialidade do jornalismo, que a mim me parece naturalíssima, mas que para o Sérgio é o fim da «decência» e das «qualidades» (palavras usadas pelo Sérgio) da democracia.

Escrevi um texto há tempos em que falava sobre a «teoria da conspiração» no comentário político. Aplica-se. Vejamos: «podemos finalmente dizer que já possuímos as mesmas armas que os fundamentalistas e terroristas há muito manejam (e deixem-me ser catastrófico e exagerado): a manipulação dos factos, a recusa da moderação, um belicismo feroz e agressor contra quem está do outro lado barricada».

Manipulação dos factos? Onde? Diz-me onde que eu vou para a rua manifestar-me (bom, talvez não). Mas é de facto um exagero: o jornalista limita-se a realçar um facto em detrimento de outro, ambos relevantes: tem de ser assim, senão não há espaço. E o espaço em jornal paga-se caro, como se sabe. Mas não oculta nada, nem mente, nem manipula. Que as pessoas só leiam as gordas não é culpa do escriba.

Recusa da moderação? Sérgio, não andas a ler as mesmas notícias que eu: Israel retirou-se unilateralmente da Faixa de Gaza. Os atentados terminaram? Não. Li até uma notícia, há tempos, dizendo que haviam aumentado. Israel reagiu? Não: até agora. Era preferível reagir passivamente, isto é: não reagir? Sabemos os resultados da resistência passiva: Gandhi era um herói? Talvez: se não nos lembrarmos dos massacres que a sua resistência passiva permitiu.

Um belicismo feroz e agressor contra quem está do outro lado da barricada: certo. Quem agrediu primeiro? Mais: quem agrediu sempre, sem regras, sem avisos, sem decência?

O Editorial do José Manuel Fernandes é exagerado. É dado à hipérbole o pobre diabo, nada a fazer. O director do Público tem uma mente tacanha: e eu não gosto de mentes tacanhas, mesmo que defendam o «meu lado». Mas também não é isso que está em causa. O que está em causa, repito, é a «objectividade» do jornalismo. Que foi «violada» no Público de ontem, dando relevância aos ataques Libaneses (o que o Sérgio apelida de «manipulação dos factos»).

Curioso é ver que no Público de hoje as manchetes dão relevância aos ataques israelitas (o que, seguindo a cartilha do caríssimo Sérgio Lavos, deverá querer dizer algo como «anti-semitismo). As manchetes: «Israel deve intensificar ainda mais a guerra nos próximos dias»; «Mais de 40 mortos no Líbano, que "está a recuar 50 anos"»; «Cenas de Guerra em Beirute». Os subtítulos, que no Público de ontem referiam, em contraposição ao título, os ataques de Israel, remetem hoje para a notícia em questão, sem dar contraditório.

Podia puxar a brasa à minha sardinha, já que hoje é o «meu lado» que está a ser «atacado» nas páginas do Público. Podia acusar o jornal de parcialidade, por não mencionar sequer os atentados libaneses. Mas não o vou fazer. Não vejo necessidade: estou habituado à liberdade de imprensa.

Bem vindo ao fim.