Portugal, Hoje - O Modo de Existir # 10
Todos os textos sobre o mundial de futebol se arrumam em duas categorias: os que falam realmente de futebol e do Mundial, e os que apontam, uma e outra vez, para a paralisação nacional durante o evento.
Do primeiro grupo, tenho pouco a dizer. Sou benfiquista convicto, embora não goste de futebol: gosto é do Benfica. Já quanto à minha portugalidade, há problema(s). Além de não ser um português convicto, e ser apenas um português, let's say, contrariado, não gosto. Preferia ter nascido inglês ou belga ou alemão. Mas enfim, a nacionalidade como a família, é uma arbitrariedade. Mas por tudo isto, não há forma de me verem a apoiar a selecção. Eu nem acho piada ao Figo.
E depois há a outra parte: a euforia saloia, a festa visigoda, a bárbara gritaria quando há um golo, já discursei sobre o assunto, e vou-me repetir muitas vezes, peço desculpa. Por tudo isto, os textos que se inserem no primeiro agrupamento, não me interessam minimamente, principalmente como escritor.
Mas é no segundo grupo que se encontram as preciosidades. Dizem-nos os escribas preocupados (e chatos) que o país parou. E parou porquê? Guess: por causa do Mundial. Acho piada ao argumento, mas não partilho da mesma opinião. Primeiro porque me recuso a aceitar o futebol como motivo de paralisação de um país (se aceitasse, estava agora a tomar anti-depressivos, claro está), mas principalmente porque o país nunca funciona, com ou sem bola. Estando ou não no Mundial de futebol, Portugal está entregue aos bichos. Isto é: aos portugueses. Li por aí alguém contar um episódio que mencionava uma repartição de finanças em hora de jogo: paralisada. So what? É difícil encontrar uma que não esteja paralisada nas horas em que não há jogo: há sempre o almoço, o lanche, o cigarro, a conversa de casa de banho, a própria casa de banho, mais outro cigarro. Há sempre um empregado que delega a função para outro e este delega para outro, e este para outro ainda. E claro, as greves. As greves são o ópio da função pública. Carvalho da Silva ao poder e era o país em permanente Mundial de futebol.
Confesso: ainda não vi nenhum jogo do Mundial. Nem da selecção nacional. Vou sabendo de lesões, de cartões amarelos, de resultados: pelos jornais, pelos blogs, pela mãe, pelos amigos, pela namorada. Santo Deus, até pela namorada. Escusado será dizer que a namorada não vê nem gosta de futebol, nem sequer tem clube: mas gosta da selecção. E sempre que penso nisto, a urticária ataca. (Enquanto me coço com as duas mãos, digito o texto com o nariz). Fico confuso: pessoas que não gostam de futebol, vêem o Mundial; pessoas que não têm clube, apoiam a selecção. Sei bem que é falha minha, mas nunca vou compreender o ímpeto nacionalista que faz as pessoas vibrar com os jogos da selecção, que suscita os gritos quando há golo. Sei bem que perco uma actividade de convívio genuíno e despreocupado. Tenho outras, é certo, mas sei que nenhuma outra terá uma componente tão grande de comunhão e de alegria conjunta.
Ao menos ainda sou do Benfica. Eu e mais seis milhões.
Todos os textos sobre o mundial de futebol se arrumam em duas categorias: os que falam realmente de futebol e do Mundial, e os que apontam, uma e outra vez, para a paralisação nacional durante o evento.
Do primeiro grupo, tenho pouco a dizer. Sou benfiquista convicto, embora não goste de futebol: gosto é do Benfica. Já quanto à minha portugalidade, há problema(s). Além de não ser um português convicto, e ser apenas um português, let's say, contrariado, não gosto. Preferia ter nascido inglês ou belga ou alemão. Mas enfim, a nacionalidade como a família, é uma arbitrariedade. Mas por tudo isto, não há forma de me verem a apoiar a selecção. Eu nem acho piada ao Figo.
E depois há a outra parte: a euforia saloia, a festa visigoda, a bárbara gritaria quando há um golo, já discursei sobre o assunto, e vou-me repetir muitas vezes, peço desculpa. Por tudo isto, os textos que se inserem no primeiro agrupamento, não me interessam minimamente, principalmente como escritor.
Mas é no segundo grupo que se encontram as preciosidades. Dizem-nos os escribas preocupados (e chatos) que o país parou. E parou porquê? Guess: por causa do Mundial. Acho piada ao argumento, mas não partilho da mesma opinião. Primeiro porque me recuso a aceitar o futebol como motivo de paralisação de um país (se aceitasse, estava agora a tomar anti-depressivos, claro está), mas principalmente porque o país nunca funciona, com ou sem bola. Estando ou não no Mundial de futebol, Portugal está entregue aos bichos. Isto é: aos portugueses. Li por aí alguém contar um episódio que mencionava uma repartição de finanças em hora de jogo: paralisada. So what? É difícil encontrar uma que não esteja paralisada nas horas em que não há jogo: há sempre o almoço, o lanche, o cigarro, a conversa de casa de banho, a própria casa de banho, mais outro cigarro. Há sempre um empregado que delega a função para outro e este delega para outro, e este para outro ainda. E claro, as greves. As greves são o ópio da função pública. Carvalho da Silva ao poder e era o país em permanente Mundial de futebol.
Confesso: ainda não vi nenhum jogo do Mundial. Nem da selecção nacional. Vou sabendo de lesões, de cartões amarelos, de resultados: pelos jornais, pelos blogs, pela mãe, pelos amigos, pela namorada. Santo Deus, até pela namorada. Escusado será dizer que a namorada não vê nem gosta de futebol, nem sequer tem clube: mas gosta da selecção. E sempre que penso nisto, a urticária ataca. (Enquanto me coço com as duas mãos, digito o texto com o nariz). Fico confuso: pessoas que não gostam de futebol, vêem o Mundial; pessoas que não têm clube, apoiam a selecção. Sei bem que é falha minha, mas nunca vou compreender o ímpeto nacionalista que faz as pessoas vibrar com os jogos da selecção, que suscita os gritos quando há golo. Sei bem que perco uma actividade de convívio genuíno e despreocupado. Tenho outras, é certo, mas sei que nenhuma outra terá uma componente tão grande de comunhão e de alegria conjunta.
Ao menos ainda sou do Benfica. Eu e mais seis milhões.
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